MC Snake morreu. Tinha 30 anos e a sua partida foi por certo uma perda irreparável para a sua família e amigos.
MC Snake não parou numa operação Stop montada pela PSP na doca de Santo Amaro, na madrugada da passada segunda-feira. Foi morto por uma bala disparada por um agente da PSP após 8 quilómetros de perseguição policial.
Ao desobedecer aos agentes da autoridade, MC Snake colocou não só a sua própria vida em risco, mas igualmente a dos agentes que o perseguiram bem como de todos os inocentes que se cruzaram com ele na estrada durante a perseguição. Arriscou-se a sofrer um acidente de viação, arriscou-se a ser atingido por uma bala da polícia que foi infelizmente o que lhe sucedeu. MC Snake teve azar, mas podia não ter sido ele, podia ter sido um inocente, polícia ou qualquer cidadão que estivesse à hora errada no local errado. Podia ter sido eu a levar com o chasso dele em cima, porque o senhor se decidiu a fugir a polícia. Podia ter sido o agente que o matou a espetar-se num poste enquanto o perseguia, e aí seria um herói, morto, a cumprir o seu dever. MC Snake foi negligente, sejam quais fossem os seus motivos.
Se MC Snake não fosse um músico conhecido (trabalhou com Sam the Kid, seu amigo) provavelmente a comunicação social divulgaria a sua morte em termos semelhantes a estes:
“Nuno Rodrigues, indivíduo com antecedentes ligados ao tráfico de droga, morreu esta madrugada após troca de tiros com a PSP no decorrer duma perseguição policial a alta velocidade nas ruas de Lisboa.”
Se MC Snake não fosse negro nem morasse em chelas, do que serviria a sua morte nas notícias? Não teríamos supostos indícios de racismo nem descriminação social, tratar-se-ia apenas dum trágico e lamentável acidente, dum momento de loucura dum cidadão perturbado que acabou mal. MC Snake poderá também ter tido um momento de loucura, poderá ter tido alguma razão lúcida para fugir às autoridades daquela maneira, poderá ter tido tudo ou nada a esconder. O inquérito das autoridades esclarecerá provavelmente todas essas dúvidas. E se se julga que o agente que baleou MC Snake ficará impune caso tenha sido culpado por negligência (intencionalidade numa perseguição policial parece-me pouco provável), será complicado, muito complicado. A pressão exercida pelos média neste país afecta muito o comportamento da nossa Justiça, ou melhor, afecta muito a justiça da nossa justiça.
Numa outra nota sobre MC Snake, e em mais uma das interessantes questões obscura nesta história (da qual MC Snake infelizmente só faz parte como instrumento mediático) repare-se nos números da participação no seu funeral:
Este artigo do público sem contar com os habituais comentários nesta publicação online, dá uma visão minimamente lúcida da posição da família e amigos. É interessante para contrastar com todo o sensacionalismo dos últimos dias que a tantas conversas de rua e café tem dado origem.
Se MC Snake… Se… Se a vida fosse feita de “ses” nada disto tinha acontecido.